Um Teto para a justiça social

Por: Valter Hugo Muniz

Casa
Presente na América Latina e no Caribe, o TETO busca superar a situação de pobreza em que vivem milhões de pessoas, através da ação conjunta entre moradores de comunidades de baixa renda e jovens voluntários.
Com escritório no bairro do Butantã, em São Paulo, e iniciando suas atividades no Rio de Janeiro, conta com estrutura organizacional enxuta, mas que já envolve uma equipe de 300 voluntários permanentes que se dedicam, no seu tempo livre, aos projetos que estruturam as ações da organização nas comunidades precárias das duas cidades.

Cidade Nova – Como e onde começou o trabalho realizado pelo TETO na América Latina?
Julio Lima – TETO surgiu no Chile, em 1997, na cidade de Curanilahue, região central do país. Com a ajuda do jesuíta Felipe Berríos, um grupo de jovens universitários trabalhava, no seu tempo livre, ajudando as famílias que viviam em condições precárias na região de Biobío. Em 2001, dois grandes terremotos atingiram o Peru e El Salvador. Procurando uma forma de ajudar as vítimas desses países, os jovens chilenos perceberam que poderiam usar o mesmo modelo de intervenção que eles vinham desenvolvendo no Chile. Foi aí que o projeto ganhou uma dimensão internacional, expandindo-se rapidamente. Conta, atualmente, com 500 mil voluntários mobilizados na América Latina. Hoje o TETO está presente em 19 países da América Latina, com escritórios de captação de recursos em Miami e Nova York, e um escritório em Londres.

Como é a estrutura organizacional dos trabalhos?
O TETO se organiza a partir do trabalho de campo. Incentivamos os jovens interessados a fazer a experiência de entrar em uma favela, conhecer as famílias que moram ali e construir uma casa com elas. É uma experiência muito marcante que vai, naturalmente, se multiplicando, porque um jovem vem, trabalha e gosta. Depois, chama um amigo, que chama outro, que convida o pessoal da faculdade ou os colegas de trabalho, e assim o TETO foi crescendo, no boca a boca. Hoje nós temos uma divulgação nas redes sociais muito forte, mas o projeto foi crescendo a partir do trabalho. Para organizar todos os trabalhos desenvolvidos, temos um escritório central, em Santiago do Chile, que reúne e controla os procedimentos adotados pelos escritórios nacionais, respeitando a autonomia de cada país. Temos uma visão e uma missão única, a mesma marca, os mesmos valores.

A construção de moradias de emergências é o único trabalho realizado pelo TETO ou há outras atividades?
A ideia do TETO nunca foi apenas a de construir casas para pessoas carentes de moradia, mas envolver toda a sociedade em torno do problema da pobreza. Nós acreditamos que a erradicação da pobreza deve ser uma questão prioritária e o nosso trabalho tem como principal objetivo envolver os jovens, universitários em sua maioria, para trabalhar conosco e em conjunto com as famílias dos moradores de favelas e assentamentos precários de todo o continente. Esse trabalho começa com a construção de moradias de emergência, mas se estende, posteriormente, à resolução de outros problemas das comunidades.

Como é feita a escolha das comunidades ?
Cada país tem a sua realidade de pobreza e de precariedade. A partir disso, procuramos seguir uma linha comum nos países em que o TETO está presente, trabalhando nos assentamentos mais precários, mais excluídos da região. Em São Paulo, por exemplo, vamos ao extremo da Zona Leste, ao extremo da Zona Norte. As principais características que consideramos quando vamos entrar em uma favela é o interesse dos moradores em desenvolver um projeto comunitário. Também a precariedade habitacional, a dimensão, entre outros. Procuramos fazer uma análise bem completa e realizamos várias visitas até iniciar o projeto. Escutamos o que os moradores têm a dizer e fazemos um levantamento de prioridades junto com eles. Eles decidem, se envolvem e se responsabilizam. O TETO facilita esse processo.

Existe um período de tempo determinado para cada comunidade ?
Aqui no Brasil não temos projetos com tempo determinado, porque as comunidades são muito diferentes. Depende sempre da demanda dos moradores, da situação habitacional da comunidade, e de vários outros fatores. Estabelecemos prazos de, aproximadamente, seis meses entre a escolha da comunidade – com a apresentação para os moradores, o cadastramento, o levantamento socioeconômico – e a primeira construção. Uma comunidade maior pode ter várias rodadas de construção, uma comunidade menor, terá menos.

Existe um perfil pré-estabelecido de voluntários que trabalham para o TETO?
O foco do nosso voluntariado são os jovens de 18 a 30 anos, mas também empresas que queiram colaborar, desenvolvendo algum tipo de voluntariado corporativo. Temos parcerias com algumas empresas e agora estamos focando bastante nos trabalhos permanentes nas comunidades, que são os “Planos de habilitação social”, além da expansão para o Rio de Janeiro e, em 2014, para a Bahia.

Como é a relação dos voluntários com as comunidades? Eles são preparados para enfrentar a realidade?
Nós damos capacitações básicas, como procedimentos de segurança. Nunca tivemos problemas. Procuramos formar voluntários experientes para que eles possam, depois, se responsabilizar pela formação dos novos.
A relação do voluntário com a comunidade é orgânica, natural. Não temos nenhum tipo de protocolo, só pedimos que aqueles que desejam ser voluntários estejam dispostos a aprender e a ouvir.

Qual é o grande desafio que o TETO enfrenta hoje no Brasil?
Um dos desafios é conseguir o apoio de pessoas físicas. Temos um programa que se chama “amigos do TETO”: qualquer pessoa pode entrar no nosso site, se cadastrar e fazer uma contribuição mensal. Esse é um programa que a gente tem procurado potencializar para alcançar uma estabilidade financeira a longo prazo, fundamental para que possamos desenvolver mais projetos nas comunidades.

Existe uma meta, um ponto de chegada para os projetos da organização?
Existe sim. O TETO tem a missão de trabalhar para a superação da extrema pobreza no continente, para que tenhamos uma sociedade justa, onde todas as pessoas possam desenvolver as suas capacidades e exercer plenamente os seus direitos.

Os anos e a experiência de trabalho dão ao TETO uma visão privilegiada sobre a questão habitacional do país…
O problema habitacional, entre tantas outras questões, é muito profundo no Brasil. Não se trata só da escassez de bens básicos para uma vida digna, mas também da precariedade de quem já tem esses bens. Para o TETO, habitação não é só possuir uma casa para dormir, mas também envolve todo o contexto onde a pessoa habita, e inclui questões como segurança, acessibilidade, salubridade, entre tantos outros aspectos que garantem o direito humano de uma habitação digna para que a pessoa possa se desenvolver individual e coletivamente. O que nós queremos propor é um trabalho em conjunto, que envolva os diversos atores da sociedade (terceiro setor, setor privado e governo) trabalhando alinhados, com soluções integradas e profundas, visando o melhor para quem hoje vive de maneira precária e/ou vulnerável. Tudo isso considerando sempre as opiniões dos moradores dessas comunidades.

E você, por que decidiu se engajar no TETO?
Eu fui movido por sentimentos tão íntimos que eu não conseguiria categorizar. Estou fazendo alguma coisa que, neste momento da vida em que eu me encontro, meu coração manda fazer. Eu tenho ciência de que esta é uma fase profissional muito importante, mas aqui eu não faço algo lúdico, eu também me desenvolvo profissionalmente a cada dia. É um aprendizado cotidiano com as famílias com as quais trabalhamos, com os moradores das comunidades. Eu acho que o que eu aprendo aqui no TETO eu não aprenderia em nenhuma empresa. É uma escolha de vida, mas que também tem um prazo, pois o TETO tem um foco no trabalho de jovens, então daqui a algum tempo eu vou sair do TETO para desenvolver minha carreira em outros lugares, organizações ou outras empresas.
A questão do dinheiro é uma questão de prioridade pessoal, eu realmente tenho hoje coisas muito mais importantes do que o dinheiro, que eu valorizo demais, que eu aprendi a valorizar, coisas que eu talvez não tivesse recebido se estivesse trabalhando em outro lugar. Não é que eu abdiquei da minha vida para estar aqui. Tem muito jovem que se ainda não está pensando assim como eu, está começando a pensar. Aqui no TETO você poderia falar com todos os voluntários e ouviria algo diferente, mas todos estão aqui porque acreditam na causa e porque acham que realmente é possível superar a pobreza, é possível melhorar a qualidade de vida dessas famílias. Trata-se de acreditar que é possível, acreditar na causa e trabalhar por ela.

Valter Hugo Muniz


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Dê sua opinião, escreva para cartas@cidadenova.org.br

Fonte: Revista Cidade Nova – dezembro de 2013

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