Tecnologia e cultura da imagem

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Por: Sonia Guggisberg

A sociedade atual não depende mais da presença física e do deslocamento das pessoas para alcançar diferentes distâncias no globo, dependendo da amplitude do aparato tecnológico usado em rede.
A velocidade tecnológica, impulsionada pelos novos dispositivos eletrônicos, atua como modus operandi na sociedade do século 21 ao mesmo tempo em que se apresenta como uma imposição violenta e invisível ao modo de vida até então estabelecido. Consequentemente, nes­tas novas bases, a estrutura social solicita cada vez mais rapidez e a sociedade, por sua vez, acelera compulsivamente seu estilo de vida tentando moldar-se a um novo modo de existir, de ser e de pensar.
Essa transformação em todos os âmbitos da vida impele à uma reflexão sobre a mudança paradigmática que a tecnologia trouxe à contemporaneidade.
No âmbito da arte, com o surgimento dos novos aparatos eletrônicos, o culto à imagem foi estimulado e impulsionado enormemente. A linguagem visual passou a ser transmitida em grande escala para a sociedade e pulverizada, alcançando a todos. Começou a ser produzida não só para o cinema e para a TV, mas também para internet, celulares e tablets, adaptando-se aos novos formatos e dispositivos. Segundo o filósofo e teórico da hipermodernidade Gilles Lipovetsky, embora com a expansão das pequenas telas o cinema tenha se retraído quanto ao número de salas de exibição, a produção de imagem “cresceu em sua essência”, infiltrando-se em todas as áreas de forma globalizada. A expansão das telas multiplicou a existência da imagem, configurando um hábito que se espalhou por toda parte, entre ambientes e pessoas.
Torna-se importante abordar a expansão do uso da imagem em seu contexto pois esta, como matriz deste sistema, impulsionou a produção dos novos dispositivos eletrônicos, construiu hábitos sociais, reconfigurando modelos e pensamentos. A produção aumentou, alcançando individualmente as pessoas em seus computadores e dispositivos pessoais. A crescente “fábrica de imagens” espalhada pelo mundo passou a determinar, sem se preocupar muito com o resultado, mudanças éticas e estéticas, históricas e sociais, remodelando a sociedade.

A arte reinventada
A internet, o maior fenômeno midiático do século 20 e o único meio de comunicação que em apenas quatro anos conseguiu atingir cerca de 50 milhões de pessoas, trouxe o mundo para dentro de nossas casas, abrindo um universo de possibilidades no trabalho e na vida de cada indivíduo conectado à rede. Mudou a vida cotidiana não apenas na relação das pessoas consigo mesmas, mas com o resto mundo.
A sociedade aderiu aos dispositivos tecnológicos e, impulsionada por estes, acelerou o ritmo de vida humana, entendendo os seus limites até alcançar o tempo tecnológico. O lema é caminhar rápido, terminar logo, fazer mais. A velocidade, sendo um fenômeno invisível, não se apresenta como uma violência dentro do universo do tempo presente, não é um acontecimento, um fato real passível de ser documentado. É uma imposição diária e contínua, estabelecida pelo ritmo acelerado de produção, e modifica a lógica de organização da vida cotidiana e da cidade. A velocidade tornou-se também um processo cultural que se autoimpulsiona, envolvendo toda a civilização contemporânea, movendo tudo e todos.
Com a expansão do uso da imagem os artistas também aderiram aos novos dispositivos tecnológicos ampliando suas experimentações para o universo da criação. Junto a esses dispositivos, passaram a pensar a ampla rede de conexões e relações entrelaçadas na internet, dilatando sua percepção, assumindo tanto as realidades captadas pelas diferentes câmeras portáteis como os recortes poéticos, as manipulações tecnológicas, a questão plástica e sígnica, para construir um mundo de novas linguagens.
A entrada da tecnologia tornou-se um processo irreversível de digitalização da cultura dando origem a algumas modalidades como net arte, videoarte e ações com mídias locativas, entre outras.
Diferentes linguagens e estilos foram criados, deixando de lado a hierarquia de formatos tradicionais, fosse na questão técnica ou na narrativa. Segundo Arlindo Machado, estudioso desses fenômenos, o cinema experimental, documentário ou ficção, se definiu por exclusão da forma tradicional. Apresentou formas atípicas e novas percepções. Revelou outros horizontes, não só por meio da imagem, mas se estendendo também ao campo da música e da imagem textual. Passou a ser um cinema de experimentos, de descobertas técnicas, visuais, sonoras e perceptivas. A mistura de arquivos, documentos, registros e técnicas de processamento da imagem para a “reconstrução” do assunto escolhido expandiu o processo de experimentação. A imagem digital ampliou mais ainda o caminho para a manipulação, abrindo-se para realidades híbridas e entrecortadas, onde contextualizações e reconstruções são produzidas.
As obras em formatos cinematográficos subvertem não só a linguagem videográfica, mas o ritual das salas escuras e confortáveis para assistir a um filme. A imagem digital abre-se para uma cadeia infinita de possibilidades do assim chamado cinema de exposição. Ele torna-se fundamental no momento contemporâneo, colocando novas questões para a arte do vídeo, chamado por Philippe Dubois, um dos principais pesquisadores da atualidade no campo da estética da imagem, de “máquina de questionar imagens”.
Artistas contemporâneos, como Douglas Gordon, Steve McQueen, Eija Liisa Ahtila, Pipilotte Rist e, no Brasil, Eder Santos, Maurício Dias e Walter Riedwig, entre outros, passaram a usar diretamente as pesquisas sobre imagem para produzir obras plásticas e apresentá-las em museus e galerias.

Sonia Guggisberg
artefatos@cidadenova.org.br

A autora é videoartista, pesquisadora e doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, Bolsa FAPESP


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Fonte: Revista Cidade Nova – outumbro de 2013

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