As muitas faces de uma viagem

Por: Thiago Borges

pppapajmjUm hiato de 707 dias separa a última celebração papal da Jornada Mundial da Juventude, em Madri, do próximo encontro do Pontífice com jovens peregrinos que acontecerá neste mês, no Rio de Janeiro. O intervalo não é tão grande – pouco menos de dois anos –, ?mas foi suficiente para provocar mudanças importantes no clero católico, a ponto de se poder afirmar que a Igreja que se reunirá no próximo dia 28, no Campos Fidei, em Guaratiba, não é a mesma que se reuniu na capital espanhola, em 2011.
A começar pela sucessão na chefia do Estado do Vaticano. Se normalmente a eleição de um novo papa produz uma série de alterações na Santa Sé, no caso mais recente, essas mudanças deverão ser ainda mais sentidas, sobretudo pela forma como ocorreram. Pela primeira vez em 600 anos a escolha de um novo líder católico não foi motivada pela morte do bispo de Roma, mas por uma renúncia. Junto com ela veio à tona a necessidade de algumas reformas, sobretudo na estrutura da Cúria Romana. A isso somou-se, por fim, a escolha de um papa latino-americano, jesuíta e de nome Francisco. Três fatos inéditos em um só evento.
Aos poucos, o novo bispo de Roma começa a imprimir sua marca nas instituições eclesiásticas e nos direcionamentos da Igreja. As disputas teológicas a respeito de que lado está a verdade nas discussões sobre doutrina dão lugar à abertura aos leigos e à ênfase em um serviço pastoral voltado ao que ele chama de “periferias da existência”. Os anos de sacerdócio em Buenos Aires e sua dedicação às comunidades excluídas da capital argentina marcaram a trajetória de Jorge Mario Bergoglio na Igreja e este aspecto agora tende a se estender a toda a sua atividade como Sumo Pontífice. Na opinião do teólogo Luiz Carlos Susin, ex-presidente da Associação Nacional de Teologia e Ciências da Religião e professor da PUC-RS, essa postura encontra ressonância nos rumos que a Igreja tem tomado no Brasil.
“Periferia aqui pode significar periferia-centro em diversos níveis, no nível de sofrimento, no nível cultural, no nível geográfico, não só de uma cidade, mas também do interior do Brasil. E nós temos tido inclusive experiências de comunidades religiosas que se inseriram em regiões pobres do Brasil. Nós temos uma experiência que pode ser retomada, renovada e o papa é um estímulo muito grande”, enfatiza Susin.
Por outro lado, engana-se quem deduz que, por seu carisma e pela postura pastoral, o papa deixa a desejar em termos de preparo teológico. Vale lembrar que ele também é jesuíta – o primeiro a se tornar papa – e, como é costume na ordem dos seguidores de Inácio de Loyola, muito afeito aos estudos e à aquisição de instrumentos conceituais no âmbito da doutrina católica.

Abertura ?e tensões internas
Após cinco meses de pontificado do novo bispo de Roma, já é possível prever qual será o tom de seus pronunciamentos e de seus gestos na visita ao Brasil. Quebra de protocolo parece ser uma das marcas registradas do pontificado de Francisco. Desde o primeiro “boa noite” à Praça de São Pedro abarrotada de fiéis, jornalistas e curiosos, o papa argentino tem mostrado carisma, bom humor e uma grande dose de improvisação. Junto a isso, tem adotado um discurso simples e pouco convencional. Suas declarações são espontâneas, mas não impensadas. Bergoglio tem se esforçado para mostrar uma outra face da Igreja católica, menos severa nas suas posições e mais aberta à diversidade e ao contexto contemporâneo. É o que acredita o especialista em teologia pastoral Agenor Brighenti, presidente do Instituto Nacional de Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Para ele, esta postura de Francisco se deve ao fato de ele ser “muito mais pastor do que intelectual. Embora tenha uma preparação intelectual, ele sempre primou por uma preocupação pastoral, no sentido de se aproximar mais das pessoas, aproximar-se mais das periferias e é isso o que tem marcado a vida dele”.
Nos primeiros meses, duas declarações causaram certo alvoroço dentro e fora da Igreja. Em uma delas, Francisco exortou os sacerdotes a não impor impedimentos ao batismo de filhos de mães solteiras. O pontífice condenou a postura de clérigos que se negam a celebrar o sacramento nestas ocasiões. “Pensai numa mãe-solteira que vai à Igreja, à paróquia e diz ao secretário: ‘Quero batizar o meu menino’. E quem a acolhe diz-lhe: ‘Não, você não pode porque não está casada’. Atentemos que esta mulher que teve a coragem de continuar com uma gravidez o que é que encontra? Uma porta fechada. Isto não é zelo! Afasta as pessoas do Senhor! Não abre as portas! E assim quando nós seguimos este caminho e esta atitude, não fazemos o bem às pessoas, ao Povo de Deus. Jesus instituiu sete sacramentos e nós com esta atitude instituímos o oitavo: o sacramento da alfândega pastoral”, criticou o papa.
Pouco depois, Francisco voltou a fazer afirmações que geraram polêmica e discordância interna, sobretudo nos setores mais tradicionalistas da Igreja. Com espontaneidade, afirmou: “Fomos criados filhos à semelhança de Deus e o sangue de Cristo redimiu todos nós! E todos nós temos o dever de fazer o bem. E este mandamento, para que todos possam fazer o bem, eu acho, é um belo caminho para a paz. Se nós, cada um fazendo a sua parte, fazemos o bem para os outros, se nos encontrarmos lá, fazendo o bem, pouco a pouco, nós faremos a cultura do encontro: precisamos muito disso. Devemos conhecer um ao outro fazendo o bem. ‘Mas eu não acredito, Pai, eu sou ateu!’ Mas faça o bem: vamos nos encontrar lá”.
A declaração provocou a resposta do chefe da TV católica canadense Salt &Light, Thomas Rosica, que contrariou Francisco dizendo que “os ateus continuam indo para o inferno se não aceitarem Jesus Cristo como Senhor e Salvador”. Brighenti explica que estas divergências se devem ao fato de que o papa “sinaliza para um pontificado em uma perspectiva mais de uma Igreja mãe do que de uma Igreja mestra e isso já tem provocado insatisfações naqueles setores mais tradicionalistas, que gostariam de um papa que frisasse mais a ortodoxia do que a ortopraxis, muito mais a doutrina do que um testemunho de vivência da fé cristã em situações adversas”. No entanto, ele esclarece que as afirmações do bispo de Roma “teologicamente estão corretas, porque o que salva não é tanto uma fé intimista, uma fé como ato simplesmente de afirmação de Deus e de sua doutrina, mas colocar em prática efetivamente os conteúdos dessa fé”.
O teólogo Susin concorda e ressalta que “com isso certamente o pontífice não está desprezando algumas normas que temos, como constituir famílias sólidas e assim por diante. Mas ele também leva em conta a realidade. Ele conheceu essa realidade de forma muito direta, muito gritante, nas periferias de Buenos Aires. Ele sabe que não dá para cobrar isso, acho que a ideia é essa. Temos as normas, mas também temos a realidade em que se faz o que se pode”.
Com ou sem oposição interna, este deverá ser, de fato o tom do discurso de Francisco aos jovens no Rio de Janeiro. O chamado a ir ao encontro das “periferias da existência” de modo acolhedor e sem impor julgamentos também deve inspirar os gestos que Francisco pretende fazer em solo brasileiro. Como ressalta Brighenti, a própria mudança na programação do novo papa, incluindo a visita à favela carioca de Manguinhos e a um centro de recuperação de dependentes químicos, aponta nessa direção. Segundo ele, a Igreja mostrará uma face “mais compassiva e acolhedora” o que fará com que “a Jornada tenha um matiz bem particular e um pouco distinto das anteriores”.

Religião não é ?produto de mercado
Mas não é somente a Igreja Católica que passa por mudanças. O país onde ela se dará também tem assistido a um fenômeno de reconfiguração de seu mapa religioso. O Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que nos últimos dez anos houve um grande crescimento no número de evangélicos no Brasil, enquanto o catolicismo perdeu espaço. Atualmente, 42,3 milhões de pessoas se dizem seguidoras de alguma denominação evangélica, contra 26,2 milhões no ano 2000. Os dados representam um crescimento de 61,45% no período. Já o número de católicos é de 123,28 milhões de brasileiros, 1,3% a menos do que no início da década.
Mesmo assim, a realização da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro não deve ser lida como uma tentativa da Igreja de recuperar território e rivalizar com outras denominações. É o que acredita o teólogo Susin. Ele destaca a importância da atuação de outras comunidades cristãs na realidade brasileira. “O primeiro critério de discernimento, para não sermos injustos, é examinar os frutos que isso produz na vida das pessoas. E isso vale também para a juventude. Muitos jovens se encontram nessas comunidades e encontram amigos de uma forma sadia, conseguem se manter longe da tentação de buscar substitutivos nas drogas, conseguem manter uma certa dignidade, uma certa autoestima importante para a vida humana”, enaltece. “A melhor coisa é a gente caminhar um ao lado do outro, sem fazer guerra de ciúmes porque uma outra comunidade cresceu e a nossa ficou menor. Eu acho que isso não é muito maduro do ponto de vista cristão”, complementa o teólogo.
Na mesma linha, Brighenti destaca que a Igreja não deve entrar em uma competição por adeptos. “Um dos riscos da Igreja é de simplesmente entrar na disputa de mercado e usar meios de evangelização que não sejam tão evangélicos no contexto de hoje. Cabe à Igreja não apostar tanto em massa, tanto em número, tanto em marketing, visibilidade e prestígio, mas é preciso que sinalize e testemunhe uma vivência do reino de Deus na simplicidade”, esclarece.
A Jornada Mundial da Juventude tem sido vista dentro da própria Igreja como uma oportunidade de aproximação dos jovens, sobretudo daqueles que não professam um credo religioso. É o que enfatiza pe. Geraldo Luiz Borges Hackmann, membro da Comissão Teológica Internacional da Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano. “A realidade da descrença atinge diretamente os jovens”. E aponta: “Neste sentido, a JMJ é uma oportunidade para a Igreja Católica tornar-se mais próximas dos jovens e de os jovens que têm fé darem testemunho de sua fé e superar a tentação de uma religiosidade vivida apenas de forma privada”.

Thiago Borges
thiagoborges@cidadenova.org.br

Impacto no bolso do brasileiro

Muito se tem noticiado sobre o quanto o governo brasileiro terá que desembolsar para bancar a realização da Jornada Mundial da Juventude. Somando todos os custos, estima-se um valor em torno de R$ 118 milhões. Pela programação que seguirá no Brasil, recheada de eventos nos quais terá contato direto com multidões e visitas a locais públicos e privados, a estadia do papa Francisco pode ser comparada à do presidente norte-americano Barack Obama, que em 2011 discursou no mesmo Rio de Janeiro para milhares de pessoas.
Evidentemente o presidente dos Estados Unidos é muito mais visado do que o chefe da Igreja Católica. Por outro lado, são dois chefes de Estado e ambos ocupam posições que foram alvo de atentados a tiro no último século – com John Kennedy e João Paulo II. De fato, o esquema de segurança que o governo brasileiro definiu para os dias de visita de Francisco é semelhante ao empregado na viagem de Obama, em 2011. O evento terá segurança reforçada pelas Forças Armadas. As operações incluem o uso de helicópteros e de praticamente todo o efetivo policial do Rio de Janeiro.
Em recente entrevista ao portal G1, o coordenador de operações da Secretaria Extraordinária de Segurança de Grandes Eventos (Sesge) do Ministério da Justiça, José Monteiro, explicou que “a JMJ tem complexidades diferentes de uma Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos, porque reúne uma grande quantidade de pessoas em um mesmo lugar”.
Além disso, o Brasil, enquanto Estado laico – não ateu –, pode ver na Jornada Mundial da Juventude uma grande oportunidade de incentivar tanto o turismo religioso quanto o turismo convencional. Em Aparecida (SP), um dos pontos do itinerário do papa no Brasil, cerca de 65% dos quartos de hotel já estavam reservados em meados de março. O preço das diárias para os dias da Jornada chegam a custar 232% a mais do que o cobrado pelos hotéis em dias normais. Já no Rio de Janeiro, estima-se que 500 mil reservas em hotéis serão vendidas para peregrinos que vêm de diversas partes do mundo. Por sua vez, 6 mil restaurantes estarão credenciados para atender à demanda na semana do evento.
A Jornada Mundial da Juventude de 2011 propiciou à Espanha ingressos na ordem de US$ 476 milhões, movimentando setores importantes da economia em pleno período de crise econômica mundial. Além disso, gerou 4.589 empregos diretos e indiretos, a maior parte deles na rede hoteleira e no varejo. Em um Estado laico e que respeita suas diversidades, a JMJ traz louros a católicos e não católicos.


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Dê sua opinião, escreva para cartas@cidadenova.org.br

Fonte: Revista Cidade Nova – julho de 2013

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